Numa época em que o Espiritismo invade as mídias temos a dizer que o codificador, Allan Kardec, jamais quiz institucionalizar a doutrina, jamais advogou a limitação do livre-pensar, dando completa liberdade aos adeptos de entenderem os princípios espíritas conforme seu grau evolutivo , sem saltos.
Allan Kardec estabeleceu critérios para validação das comunicações mediúnicas que foram esquecidos por alguns praticantes da filosofia espírita, mesmo que, com o passar do tempo, as premissas de análise pudessem ser aprimoradas e desenvolvidas - o que também não ocorreu.
Em face da grande influência católica em nosso país, e considerando a influência afro-brasileiro, o Espiritismo enquanto movimento sofreu e sofre constantemente a influência de ambos, resultando daí a "dogmatização" de determinados ensinamentos, a "ritualização" nas instituições, a "hieraquização" de médiuns/dirigentes, mistificando-os e endeusando-os, e, o que é pior, a atuação de órgãos federativos como "censores" e "prescritores" de condutas, abonando ou desencorajando, validando ou descredenciando pessoas, obras ou movimentos. Isso tudo é lamentável, mas decorre da nossa condição de espíritos errantes, aplicando ao movimento e ás instituições nossa visão ainda acanhadas e nossas interpretações parciais.
Uma casa espírita sintonizada com Kardec é uma instituição onde as pessoas se respeitam, se conhecem, procuram viver em harmonia e entender que as diferenças interpretativas não devem ser abominadas e afastadas, muito ao contrário, devem ser fomentadas. Evidentemente, em termos administrativos, haverão diretrizes a serem respeitadas, em prol do coletivo. Mas que as decisões e deliberações sejam coletivas, democráticas, e que se prime pelo respeito ao pensamento do codificador e suas balizas no trabalho e na ação espírita. O próprio Kardec nos legou oportunos exemplos: ver "Constituição do Espritismo" em Obras Póstumas, e o opúsculo "Instruções práticas sobre as manifestações espíritas" e diversos outros tópicos em "O que é o Espiritismo", obra pouco valorizadas pelos espíritas mas que, na conceituação do próprio Kardec, deveria ser uma das primeiras a serem lidas, e depois consultada com frequência.
Que tal imaginarmos que cada um de nós é parte integrante e responsável pela disseminação do conhecimento? Que tal envolver as pessoas, diretamente, na tarefa de perpetuação das informações de natureza espiritual? O legado de Kardec perspassa a ação consciente e dedicada de todo aquele estudioso que compreende os efeitos da mensagem espírita em si e busca disseminá-lo, para que outra pessoas possa ter acesso a ele, modificando-se e buscando a felicidade.
QUAL O PAPEL DE JESUS NO ESPIRITISMO?
Um papel considerável, como o dos demais avatares presentes na história da Humanidade. Há personagens com grandes lições e exemplos, não necessariamente vinculados a movimentos ditos religiosos. Há alguma confusão no meio espírita(lamentavelmente entre dirigentes e palestrantes) sobre a condição espiritual de Jesus e sua missão nesse planeta.
"Jesus: Deus ou homem? Mito ou Verdade? Humano ou Agênere? Espírito Puro ou Superior?"
Jesus é um homem formidável. Nas descrições bastante realistas e "humanas" contidas na obra de J.J. Benitez, "Operação Cavalo de Tróia", que apresentam Jesus como homem, com gostos e preferências, atitudes comuns aos homens de seu tempo e virtudes e atitudes compatíveis com um espírito ainda não totalmente perfeito, evoluído completamente ou, como constaria na "Escala Espírita", Espírito "puro". Esse jesus é o que deveria
ser o Jesus espírita, o das parábolas e exortações ao progresso pessoal e à superação de si mesmo, como na frase à ele atribuída: "Vós sois deuses, brilhe a vossa luz" ou "Tudo o que eu faço, vós também podeis fazer", entre outras.
Considerar Jesus como um dos guias e modelos para a Humanidade, mas não o único, já que a tradução "usual" e conhecida da resposta a questão 625 do "Livro dos Espíritos" está errada na maioria das edições. Herculano Pires assim traduziu: "Vede Jesus" permitindo que tenhamos a clara ideia de que muitos foram, são e serão os missionários a apresentar "dicas", apontar "caminhos" e "distribuir" conselhos para todos que estão "a caminho".
O que diferencia os seres entre si não é a "advetização" que ostentam ou o posicionamento filosófico (ou religioso) que tenham, mas os esforços para vencer as más inclinações, como está contido nos fundamentos da Doutrina e a realização de boas obra a favor do semelhante.
Muito se avançou no sentido da estruturação do movimento organizado, tendo entidades que produzem material e assessoram, com materiais especializados,o desenvolvimento de determinadas áreas dentro do conteúdo da ação espiritista. Também se pensarmos em número de adeptos e simpatizantes, a Doutrina Espírita tem ocupado um local de destaque na Sociedade, sendo disponibilizado o conhecimento espírita à milhões de pessoas, alavancado pelo crescente e acentuado interesse de empresas comerciais: (de mídia, cinema, televisão,jornalismo, CDs, DVDs, livros,etc) em altas temáticas espiritualistas e até espíritas (documentários, filmes-biografias e adaptações de obras literárias), percebendo o verdadeiro "filão" econômico existente.
Contudo, em termos de liberdade de pensamento e de expressão ainda ficamos devendo, se comparado à realidade mundial dos países democráticos. Há gente que defende a existência de uma "pureza doutrinária", a prescrição de "obras autorizadas" ou "conformes" o pensamento espírita e a necessidade de uma diretriz geral emanadas de órgãos superiores, que teria de ser seguida por todos, pessoas ou instituições.
Se buscarmos o pensamento legítimo do Codificador, encontraremos várias e destacadas afirmações sobre a garantia do livre-pensar e da possibilidade de convivência entre os "diferentes", buscando-se as semelhanças e respeitando o próprio desenvolvimento individual (calcado nas experiências vivenciais de cada indivíduo, diferentes de per si). Isto é fundamental para entendermos que, entre os homens do século XXI, há muita proximidade nas formas de buscar o entendimento sobre as realidades espirituais e aproximar as vertentes é o principal desafio dos espíritas conscientes e interessados. Discriminar, impor, separar, segregar ou rotular não são ações oportunas no dicionário espiritual.
O MOVIMENTO ESPÍRITA BRASILEIRO
O movimento, na verdade, são "vários movimentos". Há o majoritário, supervisionado pela Federação Espírita Brasileira(FEB), presente em todos os cantos do país. Podemos cognominá-lo, para fins didáticos, de movimento religioso espírita, já que suas vigas mestras são a consideração do espiritismo como uma seita (moderna) cristã, a existência de um tríplice aspecto (ciência, filosofia e religião) no Espiritismo, o reconhecimento da figura central de Jesus e seu "reconhecimento" como Espírito Verdade, entidade que se identificou a Kardec, e que assina ou dita grande parte dos textos contidos nas obras iniciais da Doutrina.
Há um outro segmento, não-religioso (laico) que adota a definição do próprio Codificador, para o Espiritismo, como "filosofia espiritualista com bases científicas e consequências morais" e que entende a necessidade de superar a fase "religiosa" do Espiritismo (vide a dissertação "períodos do espiritismo", do próprio Kardec (Revista Espírita, dezembro/1863),
alcançando o período intermediário que desembocará no de regeneração social.
PERÍODO DE LUTA
Extraído do texto de Allan Kardec, na Revista Espírita, dezembro de 1863.
O primeiro período do Espiritismo,
caracterizado pelo fenômeno das mesas girantes, foi o da curiosidade. O segundo foi o período filosófico, marcado pelo aparecimento do Livro dos Espíritos. A partir desse momento o Espiritismo tomou uma caráter completamente diverso. Entreviram-lhe o objetivo e o alcance, e hauriram fé e consolação, sendo tal a rapidez de seu progresso que nenhuma outra doutrina filosófica ou religiosa oferece exemplo semelhante.Depois veio o período de luta, em virtude de seu crescimento em todos os setores da sociedade. Então uma verdadeira cruzada foi dirigida contra ele, sendo que o início foi o auto de fé de Barcelona, de 09 de outubro de 1861.O quarto período será o religioso (escrito em 1863); depois virá o quinto, período intermediário, consequência natural do precedente, e que mais tarde receberá sua denominação característica. O sexto e último período será o de regeneração social, que abrirá a era do sec. XX. Nessa época, todos os obstáculos à nova ordem de coisas determinadas por Deus para a transformação da Terra terão desaparecido. A geração que surge, imbuída de ideias novas, estará em toda a sua força, e preparará o caminho que há de inaugurar o triunfo decisivo da união, da paz e da fraternidade entre os homens, confundidos numa mesma crença, pela prática da lei evangélica. Os tempos preditos são chegado, mas em vão que procurais sinais no céu: esses sinais estão ao vosso lado e surgem de todas as partes.
É notável que as comunicações dos espíritos tenham tido um caráter especial em cada período: no primeiro, das mesas girantes, eram frívolas e levianas; no segundo, foram graves e instrutivas; à partir do terceiro, eles pressentiam a luta e suas diversas peripécias. A maior parte do que se obtém hoje nos diversos centros tem por objetivo prevenir os adeptos contra as intrigas de seus adversários. Assim, por toda parte, são dadas instruções a este respeito, assim como por toda parte é anunciado um resultado idêntico.
Extraído do artigo de Manoel
Fernandes